Quem é publicado e quais personagens são criadas na literatura brasileira?

Uma pesquisa de 2015 realizada pela Alpaca Editora 1, que contou com a participação de 2538 pessoas, revelou que 50% das pessoas que responderam leem 10 ou mais livros por ano e que 47% dessas pessoas leem de 0 a 2 livros escritos por mulheres. Segundo a Alpaca Editora, na pesquisa:

Muitas pessoas que responderam a essa pesquisa comentaram sobre como se surpreenderam ao descobrir que não leem quase nada produzido por mulheres. Ouvimos isso de muita gente mesmo – mulheres e homens. Essas pessoas constataram algo sobre suas próprias vidas com uma informação que, até então, parecia não estar lá, mas foi dada por elas mesmas”2.

Segundo a pesquisa feita na New School for Social Research, em Nova York 3, a leitura de ficção literária aumenta a capacidade do leitor se colocar no lugar da outra pessoa e sentir empatia por pessoas que possuem vidas, problemas, pensamentos diferentes. Então se a ficção, enquanto arte que representa um modo de enxergar o mundo sob uma perspectiva diferente, possui a função demonstrar a pluralidade de vivências na sociedade, para que a pessoa que lê possa experimentar as várias sensações vividas por uma personagem com etnia, cultura, língua, sexualidade e gênero, diferentes da sua, por exemplo, a representação dos personagens deveria ser de fato plural. Segundo Regina Dalcastagnè:

Reconhecer-se em uma representação artística, ou reconhecer o outro dentro dela, faz parte de um processo de legitimação de identidades, ainda que elas sejam múltiplas. Daí o estranhamento quando determinados grupos sociais desaparecem dentro de uma expressão artística que se fundaria exatamente na pluralidade de perspectivas.4

Diante desta constatação, o que se questiona é como a representação dos diversos grupos sociais entre os escritores brasileiros publicado pelas grandes editoras se apresenta. Segundo a análise de Regina 5, o personagem médio desta literatura de ficção brasileira é homem (71,1%), branco (79,8%), heterossexual (81%) pertencente à chamada classe média (56,6%) e mora nos grandes centros urbanos (82,7%). A autora (DALCASTAGNÈ, 2004, p.15) também afirma que:

O silêncio dos grupos marginalizados (…) é coberto por vozes que se sobrepõem a ele, vozes que buscam falar em nome desses grupos, mas também, embora raramente, pode ser quebrado pela produção literária de seus próprios integrantes”.

É importante levar em consideração que essa pesquisa foi feita entre 1990 e 2004 e muita coisa mudou na produção literária nos últimos 12 anos. Também é importante ressaltar que as publicações estudadas são as publicadas por três editoras: Companhia das Letras, Record e Rocco. Outra ponderação é sobre a dificuldade de se atribuir classificações étnicas aos personagens, que muitas vezes, não são explicitamente descritos como de uma etnia específica, sendo considerados, nestes casos, a relação da personagem com o meio.

Porém, mesmo com tais limitações, este estudo nos traz uma discussão, além de dados puros, sobre a democratização da produção literária, a necessidade de crítica e autocrítica por parte dos escritores brasileiros e a reprodução de nossa realidade sem, aparentemente, uma reflexão sobre questões sociais e reproduções de opressões na arte. Sobre isso, Regina 6 explica:

Nosso campo literário é um espaço excludente, constatação que não deve causar espanto, já que ele se insere num universo social que é também extremamente excludente. Falta ao romance brasileiro dos últimos quinze anos, como os números da pesquisa indicam de maneira eloqüente (sic), incorporar as vivências, os dramas, as opressões, mas também as fantasias, as esperanças e as utopias dos grupos sociais subalternos, sejam eles definidos por classe, por sexo, por raça e cor, por orientação sexual ou por qualquer outro critério. ”

A falta de pluralidade neste grupo de escritores e em seus personagens se deve, provavelmente, a um mecanismo social que impede, barra, desestimula, não valoriza essa produção, além da negligência dos escritores brasileiros que compromete a representação na literatura. Regina (2005, p.66) acentua, no entanto, que “a representação não dispensa a necessidade da presença do outro, não elimina a exigência da democratização do fazer literário”.

A questão aqui não é dizer quem escreve menos que quem, mas sim apontar quem ainda é selecionado pelas grandes editoras. E, se não podemos mudar a maneira de pensar dessas grandes empresas, pois ela possuem como objetivo metas comerciais que nem sempre estão dispostas a contribuir para a desconstrução de conceitos, uma alternativa seria mudar a maneira como nós consumimos e produzimos literatura, utilizando a internet como estratégia de empoderamento.

1ALPACA EDITORA. A pesquisa. Disponével em: <http://alpacaeditora.tumblr.com/post/86453917211/a-pesquisa>. Acesso em 03 abr 2016.

2Idem.

3YAMANI, Priscila. Estudo diz que ler ficção literária melhora a empatia. Disponível em <http://homoliteratus.com/estudo-diz-que-ler-ficcao-literaria-melhora-empatia/>. Acesso em 04 abr 2016.

4DALCASTAGNÈ, Regina. A personagem do romance brasileiro: 1990-2004. Disponível em: <http://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/2123>. Acesso em 04 abr 2016.

5Infográfico: Eu quero escrever um livro sobre literatura brasileira. In: FORASTIERI, André. Por que escrever (ou: o escritor brasileiro, este chato). Disponível em: <http://noticias.r7.com/blogs/andre-forastieri/2013/02/20/por-que-escrever-ou-o-escritor-brasileiro-esse-chato/> Acesso em: 05 abr 2016.

6DALCASTAGNÈ, Regina. A personagem do romance brasileiro: 1990-2004. p. 63-64. Disponível em: <http://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/2123>. Acesso em 05 abr 2016.

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