A arte do show: o que aprendi com Syd Field – Parte I

A referência veio de uma entrevista com Anna Muylaerte. Ela cita Syd e Aristóteles e eu preferi começar com Syd por ser uma leitura mais leve, mais adequada para uma introdução.

Syd Field (1935 – 2013) foi o roteirista de Hollywood que influenciou a tradicional estrutura dos roteiros de filmes comerciais como conhecemos hoje. Ele deu aulas sobre o assunto e se tornou referência para roteiristas, inclusive para Anna Muylaerte, diretora e roteirista que admiro.

Ao estudar um manual voltado para a escrita de roteiros de cinema, particularmente roteiros hollywoodianos, percebi algumas semelhanças com abordagens de estruturas literárias e entendi que a escrita de roteiro possui algumas características específicas que podem contribuir para o desenvolvimento da escrita literária também.

Separei as principais “lições” aprendidas até agora que se somaram aos meus estudos de técnicas de escrita e também para minha prática diária.

Estrutura – forma é diferente de fórmula

Syd se defende das críticas explicando que o Manual do Roteiro não pretende apresentar uma receita ou uma fórmula para ser seguida. Ele contrapõe essa ideia à de forma, que seria um modelo, uma estrutura. O exemplo que o roteirista utiliza é o de uma mesa:

“O paradigma de uma mesa, por exemplo, é um tampo com quatro pernas. Dentro do paradigma, podemos ter uma mesa baixa, uma mesa alta, uma mesa estreita, uma mesa larga; ou uma mesa circular, uma mesa quadrada, uma mesa retangular; ou uma mesa de vidro, mesa de madeira, mesa de ferro batido, de qualquer tipo, e o paradigma não muda — permanece firme, um tampo com quatro pernas”

Existem várias maneiras de estruturar a história de um filme e essa que Syd apresenta foi utilizada por muitas obras de sucesso do cinema. Não concordo que seja a única maneira, nem a melhor, nem a mais adequada. É uma maneira que foi adotada por vários roteiristas.

Não me agrada a ideia de seguir um único modelo, como se só fosse possível fazer deste jeito, afinal, não existem apenas mesas de quatro pernas, e elas são tão úteis quanto, apenas não são tão comuns. Espero encontrar outros paradigmas durante meus estudos e, se possível, fazer um comparativo entre eles.

Criação de personagem

Field traz três capítulos no livro voltados para o personagem (definições gerais, criação e construção). Para ajudar na definição dos personagens, ele apresenta esquemas que ajudam a pensar na história de vida de cada um (biografia), que contribuem para dar forma e justificativa para características, medos, comportamentos, desejos, atitudes, etc. Durante a história, o roteirista passa a revelar o personagem (com base na biografia já pensada) engendrando as necessidades, as ações em todas as esferas da vida dele (pessoal, profissional e privado).

Talvez, numa obra literária, podemos aprofundar a esfera privada do personagem, podemos escolher mostrar alguns de seus pensamentos mais íntimos para desenvolver o enredo. Também podemos mostrar como cada personagem entende um mesmo acontecimento. Ou até mesmo contrapor o que o personagem expressa para as pessoas e o que ele realmente pensa.

Todos os elementos e ferramentas da história: ações, diálogos, acontecimentos, características dos personagens, devem contribuir para o desenvolvimento do enredo. Isso é essencial pensar no momento da escrita e também (principalmente) naquele momento de revisar o texto, quando temos que nos desfazer dos excessos, de tudo no texto que não contribua para o desenvolvimento da trama.

Foco na ação: a famosa técnica do mostrar

Na literatura, especialmente para nós que estamos começando, é difícil criar o hábito de mostrar, de revelar a história, de criar focos e manipular estes focos para tentar proporcionar uma sensação ou reflexão para o leitor. É muito fácil cairmos na tentação de apenas contar coisas, descrever acontecimentos, descrever o personagem, descrever suas dúvidas, conflitos, medos, ideias, planos, etc. Assim nossa escrita parece um spoiler dela mesma, antecipando de uma forma bem sem graça algo que poderia ser mostrado de uma maneira criativa e interessante.

Pode ser até que o leitor não entenda nossa sugestão, pode ser que nossa intenção passe despercebida por muitos leitores, mas o que vale mesmo é a intenção, é o exercício muito mais trabalhoso que é criar uma situação, pensar num diálogo ou desfecho de acontecimento que tente passar uma mensagem sobre algo relevante para a caracterização do personagem.

Na técnica do mostrar a ação é central. O personagem se mostra pela ação, seja ela ação física (fazer algo de fato) ou emocional (pensar em algo, sentir algo). A ação também mostra as necessidades desejos, conflitos do personagem, fazendo com que ele deixe de ser aquela imagem 2D inicial na cabeça do leitor para se tornar um ser imaginado em 3D, com texturas, capaz de despertar a identificação do leitor.

O poder do erro

Existem vários métodos de criação dos personagens e suas histórias. Você pode se inspirar num assunto, numa notícia de jornal, numa experiência própria, numa pessoa que você conhece, em várias coisas. Às vezes começamos a escrever pensando na história no geral, tendo a pretensão de escrever determinado gênero ou dar determinado efeito para o leitor. E acontece que às vezes não funciona.

Nem sempre sai como nós queremos. Ainda mais quando estamos no início da nossa prática da escrita. E tudo bem isso acontecer!

Um texto ótimo geralmente é resultado de muita prática anterior e muita revisão. E um texto ótimo pode ser resultado de ter escrito vários textos péssimos. O processo de criação deve ser despreocupado, relaxado, livre. Depois a gente pensa se ficou bom ou não, porque uma coisa é certa: não importa se ficou maravilhoso ou medíocre, o que importa é que a escrita foi exercitada.

O máximo que pode acontecer é você guardar este texto e não mostrar para ninguém. Ele será seu parâmetro de melhoria, ele te mostrará onde melhorar, o que você deve estudar. Nossos erros tem poder, precisamos aprender a utilizá-los.

Treinar treinar treinar

Ao final de cada capítulo, Syd passa um exercício. Essa é a regra de ouro: é preciso escrever todos os dias como se não houvesse amanhã. Nem que seja uma página por dia ou meia hora por dia. A prática que leva ao desenvolvimento. Por isso criei este blog. E você, como tem exercitado sua escrita?

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