O que é literatura? Uma reflexão sobre a metáfora da erva daninha

 

Quem se dedica a estudar teoria literária, uma hora ou outra vai esbarrar na velha pergunta: o que é literatura? Essa pergunta faz parte de um grupo de questões que servem muito mais para repensar arquétipos e tradições do que para dar respostas concretas.

E, numa época de muita facilidade para publicação de textos na internet, pensar sobre como determinamos o que é literatura (e o que não é) parece ser um assunto importante. Pelo menos como meio de reflexão.

Convido você a pensar um pouco sobre o que é literatura (e o que não é). E para pensar sobre isso, vamos usar, como ponto de partida, a metáfora de Jonathan Culler*, do seu livro de introdução à teoria literária.

A metáfora da erva daninha

Em seu livro sobre teoria literária, Jonathan Culler faz uma introdução à discussão sobre o que é literatura. Ele usa uma metáfora muito interessante: a literatura é uma erva daninha. Mas, para facilitar nosso exercício de imaginação, vamos considerar que a não-literatura é a erva daninha.

Digamos que estamos diante de um jardim e que é preciso decidir o que deve ser cultivado ou não. O jardineiro, que se dedicou a cultivar este jardim está nos convidando para contribuir com seu trabalho. Então, nós nos dedicamos a identificar as plantas indesejáveis.

Ao pesquisar o que é uma erva daninha, não encontramos uma variedade específica de planta. Uma planta ser ou não erva daninha depende do que a pessoa deseja cultivar. Assim, só podemos ajudar o jardineiro se soubermos qual é sua ideia de jardim.

Essa comparação da não-literatura com a erva daninha nos dá uma noção do caráter arbitrário da decisão do que pode ou não ser considerado literatura.

E essa face autoritária de determinar o que é joio e o que é trigo fica mais complexa quando pensamos que a literatura não é um jardim cultivado por apenas um jardineiro.

A literatura é um jardim cultivado por um coletivo de jardineiros. E há grupos de jardineiros com projetos diferentes de jardim, com seus conceitos de paisagismo específicos.pexels-photo-231020.jpeg

A planta que cresce onde não é desejada e o discurso do jardineiro tradicional

Quando aconteceu a polêmica fala de um professor que, durante um evento da Academia Carioca de Letras, quis desconsiderar a obra de Carolina Maria de Jesus como literatura, houve uma série de respostas de especialistas que saíram em defesa da obra de Carolina. Inclusive, a poeta Elisa Lucinda contestou a fala do professor durante o evento.

A frase mais impactante que o professor disse foi: “Ouvi de muitos intelectuais paulistas: ‘Se essa mulher escreve, qualquer um pode escrever’”.

Esse discurso de exclusão é o retrato do que defende um grupo de jardineiros que morre de medo que as “ervas daninhas” tomem o seu jardim. O jardineiro retrógrado, basicamente justifica o fato de desconsiderar o que “essa mulher” produz como literatura porque isso significaria que “qualquer um pode escrever”.

Em contraste, a defesa que muitas pessoas fizeram e fazem da obra de Carolina Maria de Jesus mostra que há pelo menos mais um grupo de jardineiros por aí que, pouco a pouco, ainda procura repensar, problematizar e desconstruir o projeto conservador de jardim.

No entanto, o discurso do jardineiro antiquado, representado pela fala desse professor, não discute as condições sociais de exclusão e opressão vividas por Carolina. Assim como também ignora as condições de vida de uma parcela significativa da população brasileira.

Embora o professor tenha apresentado outras críticas à obra da autora, essa frase se destaca porque deixou nítido que esse é um discurso que não tem como objetivo principal falar sobre as características da obra literária, sua estética e sua estrutura. Porque uma erva daninha não se define por suas características específicas, mas pelo conflito entre desejo (ou medo) do jardineiro e a possibilidade de mudança que a erva daninha traz à realidade do jardim.

Em suma, o jardineiro conservador pensa da seguinte maneira: a literatura é tudo o que é permitido crescer e florescer no jardim e as plantas que destoam desse projeto estético, devem ser exterminadas. Caso contrário, o jardim seria tomado por estas plantas indesejadas.

E isso, com certeza, incomodaria muito o jardineiro, que veria seu poder ameaçado.

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6 comentários sobre “O que é literatura? Uma reflexão sobre a metáfora da erva daninha

  1. Camille Pezzino disse:

    Oi, Mari!

    É muito complexo tudo que envolve “o que é literatura”. Mês passado, eu dei uma aula a respeito disso, terá em breve o podcast se Deus quiser, para a galera que se interessou em comparecer, etc. E falar do que é literatura nunca se completa, porque sempre há parâmetros e parâmetros a medida que o tempo evolui e as noções dos críticos mudam.

    Seria 50 tons literatura? Em que contexto? De que forma? Existem textos menos poéticos que abarcam tão mais do que 50 tons que muitos consideram literatura. Será que tenho como recusar um texto narrativo mesmo sendo parte dessa gama do que é literatura? Eu gosto muito das noções de literatura do prazer e do desprazer que, na metáfora, seriam duas partes do jardim, com plantas e ornamentos diferentes.

    Adorei o texto!

    Curtido por 1 pessoa

    • Mari Mendes disse:

      Obrigada, Camille! Tenho para mim que cada leitor possui seu jardim secreto e que apenas não podemos considerar algo erva daninha por conta de preconceitos e ter em mente que há desigualdade na sociedade… Não cheguei a ler 50 tons porque não acho bacana a erotização da violência contra a mulher e é esse critério que transforma essa obra em erva daninha para mim… Hoje acredito que quando falamos de cânone há um conjunto de jardineiros e a definição do projeto paisagístico é difícil de definir facilmente. Não é à toa que não há uma resposta única pra essa pergunta até hoje na teoria literária…

      Curtido por 1 pessoa

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