As meninas de Lygia Fagundes Telles e o existencialismo de Sartre

Neste artigo você encontra uma análise do romance As meninas sob uma perspectiva existencialista. 

Tempo estimado de leitura: 21 minutos (melhor pegar um café).


Até que ponto o escritor é influenciado pelos conceitos filosóficos mais relevantes de sua época? Essa dúvida ficou pairando sobre mim depois de ler As meninas, de Lygia Fagundes Telles.

Atribuir uma corrente filosófica a um autor que nunca declarou esta convicção é típico de especulações. No entanto, toda interpretação possui  peças hipotéticas em seu quebra-cabeça.

Lygia Fagundes Teles em suas performances escorregadias e astutas diante de entrevistadores experientes e munidos de perguntas afiadas não disse objetivamente o quanto Sartre engrossou o caldo da sua literatura. Pode ser que  Lygia prefira construir uma imagem sua como escritora menos óbvia do que isso. Mas também pode ser que ela não admita nem para si mesma a interferência dessa maneira de pensar em sua escrita.

Coronado, em seu ensaio Lygia e a Condição Humana faz uma introdução intrigante. Ao mesmo tempo que admite a influência existencialista em muitas obras contemporâneas à escritora e que provavelmente esta onda filosófica a atingiu, o autor defende Lygia de ser considerada apenas uma seguidora de tendências. O que aconteceu, segundo o ensaísta, foi uma identidade com a angústia existencial, que casou com o seu modo de ser.

Em sua participação no Roda Viva em 1996, Lygia diz que acredita em Deus, o que a afastaria das ideias de Sartre, especificamente. Coronado a aproxima mais, analisando seu livro A disciplina do Amor, dos existencialistas cristãos. É possível dizer que As meninas possui em sua construção alguns respingos da maré existencialista vivida por Lygia em sua juventude no pós-guerra.

Se a interferência em suas criações foi algo espontâneo ou pensado, nunca saberemos. Insisto, porém: analisar a obra de Lygia considerando a influição da saturação do existencialismo nos pensamentos daquele tempo não é diminuí-la.

Ainda no programa Roda Viva, Lygia diz que o bom escritor está naturalmente engajado na política. O escritor deve ser uma testemunha de um tempo e de uma sociedade. A denúncia aos crimes da ditadura presente em seu livro é motivo de orgulho. Para ela, o escritor deve expôr o que há de errado na sociedade.

Uma testemunha e participante de seu tempo é passível de reprodução de conceitos dessa ou daquela linha filosófica sem que isso obscureça sua figura de autora já consagrada.

Em seu texto Personagens Gostam da Vida, Como Nós, publicado em O Estado de São Paulo em 1995, Lygia diz:

Somos testemunhas e participantes deste tempo e desta sociedade com todos os seus vícios. E raras virtudes. ‘Lutar com a palavra/ é a luta mais vã/ no entanto lutamos/ mal rompe a manhã’. Os versos são do poeta e valem para sempre, uns lutam com o cimento armado. Com as leis. Outros, com os bisturis. Eu luto com a palavra. É bom? É ruim? Não interessa, é a minha vocação.

A escolha de Lygia, num contexto existencialista é usar as palavras para engajar-se na sociedade.

Em seu julgamento a vocação é um chamamento atendido. Uma necessidade cumprida de enveredar por um caminho. A paixão por esse trabalho escolhido caracteriza a vocação. Segundo ela: “Vocação é a felicidade de exercer o ofício da paixão”.

Se o homem é aquilo que faz de si mesmo, a vocação lygiana pode ser compreendida como uma maneira de definir-se no mundo.

As meninas

Considerado um romance psicológico, As meninas (1972) pode deixar o leitor atordoado. A técnica do fluxo de consciência faz com que quem lê o texto seja jogado entre a perspectiva de uma e outra das três personagens.

O turbilhão de pensamentos dá uma noção nítida da intimidade das moças, que não têm oportunidade de filtrar o que o leitor têm acesso. Quem faz isso é o narrador, que por ter apenas esse papel de “curador” do pensamento da personagem, quase que desaparece.

Este narrador dá as caras uma hora ou outra, apenas para fazer uma transição suave entre uma consciência e outra. Lygia nos dá uma visão privilegiada, mas ainda assim controla o que podemos saber.

O livro conta a história de três universitárias que vivem num pensionado católico provavelmente em São Paulo:

  • Lorena é estudante de direito e é de uma família rica. A maneira como o livro é estruturado dá a impressão de que a maior parte da narrativa dá acesso à consciência desta personagem e ao que ela pensa em relação às outras. Lorena é virgem e nutre uma paixão platônica por um médico casado e muito mais velho;
  • Lia, chamada pelas amigas de Lião, é estudante de ciências sociais, baiana e militante comunista. Pertencente à classe média, é filha de um antigo oficial alemão que abandonou o exército nazista e refugiou-se no Brasil. A consciência desta personagem é a que menos aparece durante o romance. Preocupada com as questões sociais, sacrifica a vida pessoal e acadêmica em prol da luta contra a ditadura e em favor de uma sociedade mais igualitária. É namorada de um outro militante de sua organização, o Miguel.
  • Ana Clara, apelidada de “Ana turva” pelas outras duas amigas, é estudante de psicologia, possui um histórico de miséria e abusos intensos na infância. Ruiva, alta e magra, é tida como a mais bonita das três. É dependente de heroína e possui um desejo delirante por riqueza. Seu namorado também é dependente químico, chama-se Max.

Durante o desenvolvimento da história surgem as madres responsáveis pelo pensionato. Na relação delas com as jovens é possível conhecer um pouco sobre o que cada uma das protagonistas pensa sobre a sociedade, a religião, o sexo, a homossexualidade e a Igreja.

O pano de fundo da história é o final dos anos 1960. A ditadura estava em seu auge repressivo, os chamados “anos de chumbo”. É possível perceber a violência velada, a pressão do contexto político durante o romance. O seu auge acontece na leitura do depoimento de um torturado.

A violência contra a mulher também é algo que perpassa o livro, começando com um sutil tapa que Lorena leva do namorado de sua mãe e vai se aprofundando com as lembranças dos assédios sofridos por Ana Clara.

O existencialismo de Sartre

Em seu texto Existencialismo é um Humanismo, de 1946, Sartre explica sua linha de pensamento enquanto a defende de diversas críticas. Explica que a base do existencialismo é a ideia de que “a existência precede a essência“, ou seja, primeiro o homem existe no mundo e depois se define.

Esta definição do ser humano não acontece a priori, pois não há uma natureza humana, como uma concepção de criação humana e executada por um Deus. Mas apenas por meio das ações no mundo é que o homem pode definir-se. Ao engajar-se o ser humano se faz.

O homem é então o que ele projeta para o futuro e constrói por meio de seu engajamento presente. Criando o ser humano que queremos ser, individualmente, escolhemos o que o homem deve ser coletivamente. A escolha de um homem engaja a humanidade inteira.

Essa responsabilidade por escolher algo não apenas para si, mas para todas as pessoas gera uma angústia existencial. Mas esta não é a única fonte de angústia. Pois ela também brota da liberdade. Se o ser humano é completamente responsável pelo que se torna por meio da sua ação no mundo, ele é então totalmente livre. “O homem é liberdade” e “o homem está condenado a ser livre” são máximas existencialistas.

A maneira de ser no mundo nem sempre é coerente com uma escolha para toda a humanidade. Essa falta de congruência gera sofrimento. E essa aflição pode levar à busca de desculpas. Para escapar da responsabilidade por suas escolhas, o homem procura maneiras de justificar ou explicar suas ações de uma maneira que o redima de sua liberdade. Esse é o conceito de má fé para Sartre: quando se alimenta o engano de colocar a responsabilidade de atos em fatores alheios há a negação da liberdade.

As escolhas são, portanto, inevitáveis. Até a não escolha passa por uma decisão, segundo Sartre: “mesmo que escolha não escolher” ainda assim há um arbítrio. No entanto admite: algumas escolhas estão fundamentadas em erro e outras na verdade.

As meninas e o existencialismo

Uma pessoa não é nada além do conjunto de seus atos, segundo Sartre. Quais atitudes definem, então, cada uma das três personagens principais?

Lia está constantemente envolta em tarefas da organização revolucionária da qual faz parte. Seu engajamento político é comprometido com o seu tempo e com as necessidades democráticas da sociedade. Acredita ser totalmente livre e é existencialista neste sentido.

Neste trecho em que Lorena se refere à amiga militante é possível captar essa noção de liberdade:

Lião fica uma vara se falo em cartomantes, sou vidrada em cartomante. Disse que não tem destino, não tem nada porque somos livres, completamente livres. ‘Não sei explicar mas se um dia eu for presa, é essa prisão que vai provar minha liberdade’. Eu não entendia, fazia muito calor, quase quarenta graus à sombra, a cuca obumbrada e ela a fim de me expor a doutrina sartriana.

Lorena vive o oposto do engajamento político de Lia. Alimenta sua paixão platônica, guarda sua virgindade para um homem casado, do qual espera um telefonema. Sua rotina nos dias de greve da universidade se resumem a fazer exercícios, tomar longos banhos e refletir sobre muitos assuntos, mas principalmente seus sentimentos por M.N. e o trauma da morte do irmão. Lorena escolhe não escolher. Na verdade quer ser escolhida por M.N. e permanece atada a uma angustiosa espera.

Lia, uma existencialista, a vê desta maneira:

Tenta ainda me prender, não quero mesmo almoçar? E que tal uma volta no Corcel? Um sorvete no clube? Saio e bato o portão. Vejo-a como uma prisioneira através das grades do seu jardim. Sinto uma certa tristeza mas logo tenho vontade de rir. Pontos de vista: para ela a prisioneira não sou eu?

Lorena não escolhe, talvez, porque não acredita na liberdade. Num de seus monólogos internos, ela questiona o livre arbítrio das duas companheiras do pensionato. Acredita que Lia está presa à sua decisão de lutar tanto quanto Ana Clara está presa pelo vício:

‘O controle é meu, paro quando quiser’, respondeu-lhe. Imagine. Há muito que já não tinha mais as rédeas nas mãos. Abriu as próprias. Mas quem é que tem? A própria Lia que falava sempre de cima de um caixote tinha ainda essas rédeas? ‘Perdeu o namorado, perdeu o ano por faltas, buleversou tudo. Nem banho mais toma. E com este calor’, pensou Lorena (…).

Cada uma acredita em sua própria liberdade e questiona a das outras.

Ana Clara é a personagem mais complexa do romance. Representa o impasse e o sofrimento da má fé. Enquanto sua atitude é o de se entorpecer junto ao seu namorado Max, ela maquina o casamento com um noivo rico, a quem se refere como “escamoso”. Parece estar atrasada para um compromisso com esse suposto pretendente, que não fica claro se existe.

Essa possibilidade de casamento e com ele o acesso ao dinheiro é a desculpa de Ana Clara. Ela cria seu determinismo associando a liberdade ao dinheiro que conquistará por meio do casamento:

Com dinheiro e casada não precisaria mais de nenhuma ajuda, ora, análise. Nenhum problema à vista. Livre. Destrancaria a matrícula, faria um curso brilhante. Os livros que teria que ler. As descobertas sobre si  mesma. Sobre os outros. (…) Liberdade é segurança. Se me sinto segura, sou livre.

Para o existencialismo, a má fé pressupõe a renúncia da liberdade.

O pântano e a fragilidade da juventude

Em seu já citado texto de 1995, presente na edição de As meninas da Companhia das Letras, Lygia conta:

(…) o escritor pode ter remorso por dar a esta ou aquela personagem um fim melancólico ou trágico. Assim como a gente tem remorso (o sentimento de culpa!) com as personagens de verdade que um dia (consciente ou inconscientemente) foram feridas por nós. Um ferimento que às vezes nem cicatriza e é visível até o fim. Confesso que não queria matar a jovem (a Ana Clara e turva) que também resistiu. Mas descobri depois que o remorso que eu teria por deixá-la viva seria mais agudo do que se a eliminasse.

A decisão de matar Ana pode ser uma atitude com fundamento moralista. Principalmente se pensarmos em como a questão das drogas é comentada por Lygia em suas entrevistas: uma ameaça à vida dos jovens.

Matar Ana representa uma necessidade moral de exemplificar aos leitores as consequências de uma má escolha: a falsa liberdade das drogas. Esta é, portanto, uma morte metafórica da liberdade, que foi nagada por esta jovem. Uma escolha fundamentada num erro que teve um fim nefasto.

A culpa de Lygia em dar este fim à personagem está relacionada a constatação da fragilidade da juventude. Essa ideia aparece no romance durante uma conversa da madre Alix com Lia.

Esse diálogo é intenso. Representa uma tentativa de conexão entre a geração de Madre Alix e a geração das protagonistas. A freira diz que ao mesmo tempo que julga conhecer as jovens e se aproximar, sente que se reduz a uma ouvinte, que pode apenas testemunhar aquela vivência e não intervir:

— Vocês são jovens, Lia. Eu não contava com uma aproximação maior. Mas assim afastada como estou de que forma posso ser útil? E eu queria ser útil (…) Ana Clara é a única que se deu sem reservas. Pois diante dela me sinto tão inútil quanto diante de vocês, reduzida como estou a um gravador, gravo o que me diz, aceito a carga, mas quando procuro influir, mudar o que deve ser mudado ela me escapa como uma enguia.

À despeito dessa sensação de impotência, a superiora conta a Lia que planeja internar Ana em um sanatório para que ela possa se livrar da dependência química. Fala que a jovem “é incapaz de uma decisão”.

É também nesta conversa que Lia expõe sua concepção sobre a amiga: fez escolhas que a levaram a um território para além da permitida “loucura razoável” e que não adianta tentar intervir na vida dessa jovem individualmente.

Para Lorena, Lia se desculpa:

Estou completamente amarrada, Lena, não posso ajudar Ana Clara. Se me enrolo com viciado. Nem que fosse minha irmã, não posso, onde tem traficante e viciado tem tira aos montes, estão querendo demais nos misturar. Se facilito. Sei que ela está doente mas essa é uma doença que me dá vontade de esganar o doente. Vão submergindo com aquelas caras pasmadas, vão afundando todos, um por um, você puxa eles pelo braço, pelos cabelos, grita, ameaça, faz tudo e eles afundando como um bloco de cimento atirado num pântano. Nem os bichos, Lena, que os bichos reagem, esperneiam. Eles, não. Afundam com aquela cara parada, mortos por dentro. Fazer o quê?

Lorena compara a situação de uma pessoa viciada em drogas com um bloco de cimento que afunda num pântano. Ana Clara recorda um sonho em meio aos seus delírios que parece reforçar a metáfora do pântano:

Queria falar do pântano com a cara da minha mãe na água preta. Fujo feito doida nadando com força, não sei nadar mas continuo nadando arrancando do fundo lodo e plantas que se enroscam em mim e me tapam a boca, me larga! Sacudo as mãos e me livro das coisas gelatinosas peixes folhas. Sei que logo adiante vai aparecer a piscina, fica logo ali a piscina eu não disse? Entro de cabeça na água limpa e me lavo inteira, rindo com Lorena que está nadando ao lado. Sei nadar digo e ela sacode a cabeça e faz caretas e vai dizendo, azulpiscina azul-piscina. Quero rir com as caretas mas tapo a boca. Perdi minha ponte. Minha ponte, mãe! Perdi minha ponte, A ponte! grito passando a língua e só gengiva escorregadia como lodo. Ela viu ela viu. Começo a me debater porque não consigo mais nadar, afundo com as plantas enroladas nos
meus pés, me larga!

O lodo parece algo atrelado a sua condição de vida. Por mais que fuja do lodo há algo ( a falta da ponte) que a leva de volta àquele lugar de inação, de desespero e incapacidade de fuga. O pântano representa seu passado trágico e também seu vício presente.

Mais adiante, após o choque causado pela morte da colega de moradia, Lia se arrepende:

— Eu devia ter feito alguma coisa por ela e o que fiz? Discurso. Essa puta vocação pra discurso.

— Ninguém podia fazer nada, querida. Nada.

Quem responde é Lorena, mais uma vez confirmando a ideia de que apenas Ana Clara poderia salvar a si própria, caso não tivesse escolhido se enganar.

Mas ao mesmo tempo, segundo Madre Alix, a juventude é frágil. Mesmo que tivesse escolhido a ação ainda assim Ana estaria vulnerável, porque essa é a condição dessa juventude.

A morte de Ana representa não apenas a morte da liberdade. É uma alegoria da fragilidade de uma geração, que torna a liberdade compulsória um fardo difícil de carregar.

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