O autor e a sua interferência na interpretação do livro

Neste artigo você lê um pouco sobre como o autor (e a ideia que você tem dele) influencia sua leitura e compreensão de um texto.

Tempo estimado de leitura: 9 minutos (dá pra ler no ônibus).


 

Segundo o ditado popular não se deve julgar o livro pela capa. E pelo autor, pode?

Ok, precisamos admitir que dependendo de quem escreveu, nossa expectativa pode mudar. E não apenas isso: conforme o autor (ou a ideia que temos dele), fazemos certas concessões, típicas de uma boa vontade seletiva. Podemos dar uma atenção especial apenas porque sabemos isso ou aquilo sobre quem escreveu.

Você pode responder: “Eu não tenho toda a eternidade para ler. Meu tempo na Terra é finito, portanto, não lerei um textão do Facebook da mesma forma que leio um clássico”. Este é um pensamento muito coerente. No entanto, já parou pra pensar na quantidade de experiências ótimas de leituras você já perdeu por ter essas concepções prévias?

Se você nunca parou para questionar sobre quem decide o que é um clássico, se nunca se perguntou sobre a autoridade que envolve o nome do escritor de um livro, sugiro que você ceda um pouco da sua atenção a este artigo.

Não precisa ser mesma atenção que você dá a um clássico, longe disso. A que for gerada pela sua curiosidade já basta…

Um personagem definido

Segundo Jonathan Culler em Teoria Literária, Uma Introdução:

Os leitores presumem que, na literatura, as complicações da linguagem têm, em última análise, um propósito comunicativo e, ao invés de imaginar que o falante ou escritor não está sendo cooperativo, como poderia ser em outros contextos de fala, eles lutam para interpretar elementos que zombam dos princípios de comunicação eficiente no interesse de alguma outra meta comunicativa.

Esse status de obra literária que nos faz ler um texto com uma espécie de voto de confiança é construída por meio da consagração de uma obra e, também, de seu autor.

Essa consagração pode ser o hype, que faz com que todo mundo esteja lendo um livro, obrigando você dedicar-se a ele para poder participar do debate nas redes sociais. Mas também pode ser o fato deste ou daquele autor ser debatido em sala de aula na escola ou ter de ser bibliografia básica para prestar uma prova.

Este nome do autor traz em si uma descrição que possui uma relação com as suas obras. Ao evocar o nome de Machado de Assis, seu cérebro já puxa o arquivo de sinapses com todas as referências. O que você sabe sobre ele influencia a maneira como você se relaciona com suas obras.

Essa criação de um personagem do autor ajuda a definir o que é obra e o que não é. Isso acontece porque nem tudo que um autor escreve é considerado sua obra. Ou você já leu um bilhete que Machado deixou para sua esposa sobre a mesa da cozinha? Provavelmente não. (Mas, se sim, por favor, compartilhe com a gente!)

Lygia Fagundes Telles, por exemplo, decidiu o que é sua obra: descartou tudo que escreveu antes de Ciranda de Pedra. Nas entrevistas que dá, rotula esses primeiros livros como “juvenilidades”. Esta é uma tentativa da autora de estabelecer o que deve ser relacionado a sua persona literária. Mas quem decide no fim das contas?

Na maioria dos casos essa decisão cabe aos pesquisadores e editores, que publicam alguns materiais em detrimento de outros. Cria-se um foco, uma atenção especial a alguns textos, que caracterizam esse autor. A construção desta obra vai mudando com o tempo e pode culminar em algo inimaginável para a pessoa que escreveu aqueles textos.

Em outras palavras, o jardineiro que define o que é erva daninha e o que não é no jardim das obras consagradas é também a função do personagem criado ao redor do autor. Essa “função-autor”, como chama Foucault, é criada por uma série de fatores, difíceis de enumerar. Parece que o jardineiro é mais complexo do que poderíamos supor.

Desta maneira, parte do sentido da obra estaria em quem o escreveu, em seu contexto histórico, nas suas circunstâncias e também no projeto do qual este texto partiu. As raízes do texto são incluídas no cardápio da interpretação.

Foucault ainda explica em sua palestra, que essa função-autor exercida pela persona que escreve um texto não remete a um indivíduo, mas a um “conjunto de egos”. É formada por um intricado de operações complexas, relacionadas ao mundo dos discursos. E tem uma maneira de funcionar mesmo fora de seu contexto histórico.

Para o Prof. Paul Fry em sua segunda aula no curso de Introdução à Teoria Literária, essa palestra do início de 1969 ministrada pelo filósofo francês marca um período de questionamento da autoridade.

Pensar sobre a influência do autor na interpretação de suas obras é questionar uma forma de poder criada por um discurso. Porque a “função-autor” teria como objetivo policiar a maneira como os livros são lidos.

Etimologicamente, a palavra autor vem do latim AUCTOR e significa: o que faz crescer, o que aumenta. Também pode ser usado como fundador, mestre e líder. No século XIV era usado no sentido de “aquele que emite ordens por escrito“.

O autor condenado

Segundo Roland Barthes em seu ensaio A morte do autor, o criador de uma obra como um indivíduo com prestígio pessoal é uma personagem moderna que passou a existir após o fim da Idade Média.

Seria um sintoma da ideologia positivista, que concede maior importância à esta pessoa que escreve. Em relação a sua criação literária, o autor seria como um deus, que é onisciente e onipresente.Desta forma, os críticos que dominam os conhecimentos sobre o autor, também dominam uma parte importante do poder de interpretação.

Escrito em 1968, o ensaio de Barthes também segue essa tendência de questionamento da autoridade e do poder. Por isso, para o linguista, não se deve considerar a obra como uma fala do autor, mas como uma performance da linguagem.

O autor influencia suas obras por meio de sua vivência ou suas obras interferem em sua vida? Seria a relação do autor com a sua obra uma via de mão dupla?

Segundo esta concepção, a obra deixa de ser pensada como uma filha de seu autor. O autor nasce junto com a obra, pois ele só se faz autor ao escrever, assim como sua obra se cria por meio de sua escrita. Nascem os dois, interdependentes.

Quase algo como criar seu filho para o mundo. Ser pai ou mãe transforma a pessoa assim como a maternidade ou paternidade exercida ativamente, influencia a vida do filho. Só que chega uma hora que a cria se torna uma pessoa adulta e vive uma vida longe da influência dos progenitores. Pelos menos é isso que dizem…

Quando você conhece os pais de um amigo seu, muitos comportamentos dele passam a fazer sentido, não é mesmo? Mas ao mesmo tempo não é possível defini-lo apenas pela sua filiação. Ou é?

Ao ler um texto sem saber absolutamente nada sobre o autor, a leitura se transforma. A percepção muda e a leitura é guiada menos por um discurso formado sobre a autoridade do escritor e mais pela experiência de quem lê. Nas palavras de Barthes: “Uma vez afastado o autor, a pretensão de ‘decifrar’ um texto torna-se totalmente inútil”.

Quando nosso esforço não está em desvendar um sentido “pronto” e “correto” de uma obra, passamos a dar mais valor ao que sentimos, as relações do texto lido com nossas experiências pessoais e as nossas vivências. As possibilidades de interpretação são muito mais amplas, então.

A limitação do significado do texto sugere um temor em relação a multiplicação dos sentidos. E por que há medo? Porque há os que têm gosto pelo poder. Para Barthes “o nascimento do leitor se paga com a morte do autor”. E com ele vai também o crítico. E já vai tarde, bradaria o ensaísta.

A concepção prévia sobre o autor realmente limita a interpretação ou pode ser entendida como um ponto de partida, digna de discordância, questionamento e desconstrução?

Para o leitor crítico, a valorização da experiência de leitura pode nortear uma análise diferente. As referências acadêmicas pode servir de complemento, contraponto ou até como um início. Nunca como barreira.

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3 comentários sobre “O autor e a sua interferência na interpretação do livro

  1. Camille Pezzino disse:

    Talvez seja uma coincidência do destino, porque eu já fiz um trabalho na faculdade a respeito de autor e autoridade e essa formação do -dade nas palavras e fiz muitas pesquisas a respeito da figura do autor e de sua classificação, usando Barthes e outros autores para isso.

    Aliás, antes que eu esqueça, li quase que exatamente em nove minutos.

    Falando do texto, eu gostei muito da sua reflexão e é uma reflexão que gera mais questionamentos do que respostas e acho que, a depender, cada um vai tirar uma conclusão diferente a respeito do que é ou não, qual resposta seria boa ou não, etc.

    Na minha concepção, o autor gera a obra como um filho, faz parte das vivências dele e a obra definitivamente revive isso, mas também não se limita e nem se faz completamente, porque o autor vai dar algumas características suas, propositais ou não, algumas influências, propostas por si mesmo ou não, e não todas. Da mesma maneira, nós não conheceremos o autor nunca em sua plenitude para ter certeza de todas as referências e o que ele quis dizer em tudo, logo, definir a obra pelo autor me parece muito abstrato.

    Mas também plausível, porque há algo do autor que podemos reconhecer, como na metáfora do pai e do filho. E, usando da mesma metáfora, o filho terá influências externas dos amigos e outros parentes que o modificarão, como nós, leitores, modificamos o texto ao lê-lo e visitá-lo. Nós o alteramos porque temos perspectivas e vivências diferentes do autor e isso também é bom.

    Confesso que a frase que diz que “o nascimento do leitor se paga com a morte do autor” me incomoda, porque, vivendo de platonismo, penso que há um equilíbrio em tudo. Por que não vivemos a obra como experienciamos e tentamos, ao mesmo tempo, conhecê-la pelos olhos do autor? Viver uma experiência literária, na minha perspectiva, nunca é plena, logo, revisitar a obra sempre nos dará x, y e z interpretações a cada leitura porque somos outros e, dessa forma, o texto se transforma. Nós nos transformamos ao ler e reler o texto. Podemos ler crus, conhecendo o autor, desconhecendo o mundo, desbravando bibliotecas e, a cada vez, tomaremos outro ponto e isso faz a obra ser além do autor, ainda o sendo, pra mim, claro.

    Obrigada pelo texto e, principalmente, pelos vídeos do curso do professor Paul Fry, eu não sabia que tinha no Youtube. 😉

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    • Mari Mendes disse:

      Uau! Muito bom saber a opinião de uma pessoa que estudou cuidadosamente sobre o assunto. Tive dificuldade de trazer respostas prontas porque eu ainda não possuo tanta certeza assim sobre a questão da influência do autor. Sei que a interpretação não deve ser podada por sua intenção, mas ainda acredito que saber quem é o autor influencia a leitura… Essa ideia que você expôs de que nos transformamos conforme lemos e que a obra se transforma, enquanto interpretação nossa, com o passar do tempo é muito importante mesmo. Talvez eu devesse ter explorado essa perspectiva no texto. O próprio Paul Fry fala disso numa das aulas. Quando escrevi esse texto ainda não havia assistido ao curso todo de Teoria Literária. Enfim, obrigada! ❤

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  2. Lilian de Souza Farias disse:

    Como faz para um montão de gente esse texto?

    Em certo momento recordei de uma leitura interessante que Gonzalo Aguilar e Mario Cámara acerca da imagem simbólica que criamos do autor, a exemplo dos óculos de Ruffato ou do bigode de do Leminsk, o cachorro louco, a magreza de Drummond ou a gordura de Andrade e como isso influencia no coletivo pela perspectiva performática.

    Sobre a fala de “juvenilidades” descrita pela autora, também ouvi sobre em Borges e num documentário sobre o Cacaso que morreu cedo e que se estivesse vivo, segundo os teóricos e amigos, certamente mais maduro em experiências, isso estaria transcrito em seu texto. Borges, por sua vez, relata no texto juvenil uma necessidade desequilibrada ao niilismo o que é normal, por exemplo. Vale ressaltar que ele não usa essencialmente essas palavras, está mais para minha interpretação.

    Enfim, nesse processo de persona ou criação das máscaras, como Aguilar e Cámara descrevem, podemos entender a reação de alguns autores em seus instintos atos de isolamento, talvez dessa forma para que sua criação se viva mais livre, possa voar por si só, evidente, seu criador sempre será sua sombra.

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