As mulheres e o feminismo em A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende

Ao ler A Casa dos Espíritos você percebe que se trata da história de quatro gerações de mulheres da família. E as quatro personagens que dão corpo ao romance de Isabel Allende permitem um paralelo com o movimento feminista no século XX.

A saga das Del Valle começa com a sufragista Nívea e termina com Alba em sua resistência à opressão da ditadura militar.

Cada uma delas possui sua identidade, o que permite que tenham uma visão analítica em relação às atitudes umas das outras. Essas pequenas discordâncias, no entanto, não afetam a relação entre elas. O vínculo entre as mulheres da família é muito forte.

A ancestralidade da literatura de autoria feminina

A genealogia feminina na literatura escrita por mulheres é um dos motivos para a conexão tão forte entre as mulheres de A Casa dos Espíritos.

Igualmente, a relação das protagonistas com outras personagens é, na maioria dos casos, de acolhimento e reconhecimento das dores comuns.

E mais: o elo extrapola a ficção. A mulher que lê o livro de Isabel Allende pode sentir-se ligada à trama por meio do compartilhamento das vivências. Nos identificamos com as personagens e revivemos nossos sofrimentos. Isso que diz Lélia Almeida em seu artigo:

São genealógicos os textos que narram as relações das protagonistas femininas com seus pares familiares, sejam elas mães, avós, tias, filhas, netas, bisavós, irmãs, madrinhas, etc. Textos que narram as relações das mulheres com outras mulheres que não fazem parte de sua ascendência ou descendência familiar direta; mulheres que são determinantes em suas vidas e biografias, sejam elas alunas, professoras, vizinhas, babás, nanas, empregadas, amigas, terapeutas, etc. E são genealógicos os textos que tratam das protagonistas, leitoras ou autoras, que dialogam com autoras e leitoras de outras épocas, num procedimento que tem como objetivo estabelecer uma linhagem, a possibilidade de uma ancestralidade literária.

As críticas das Del Valle são uma marca de uniões que se pontuam em diferenças, mas que buscam uma identidade própria sem anular ou submeter a outra às suas escolhas. Assim, embora cada uma das mulheres dessa linhagem não concorde totalmente com a outra, elas não rivalizam e não rompem relações por conta disso.

Literatura de Autoria Feminina e Feminismo

A tradição literária feminina possui alguns padrões de temas, problemas e imagens transcritas em suas obras. Esses arquétipos estão ligados à experiência da mulher e sua condição de vida na sociedade.

Flávia Biroli e Luis Felipe Miguel trazem, em seu livro Feminismo e Política: uma introdução, o conceito de perspectiva social. As mulheres, assim como os representantes de outros grupos marginalizados, possuem um ponto de vista sobre os processos sociais que é muito particular. É um ponto de partida para a análise da sociedade. Isso acontece porque carregam um certo conhecimento específico sobre o mundo social que apenas elas têm a condição de expressar:

Assim, a avaliação prioritária pela aparência física, a responsabilidade automática pela gestão da vida doméstica e pelo cuidado com os mais vulneráveis, a expectativa de que sejam menos racionais e mais emotivas, a menor atenção concedida aos seus interesses e desejos ou o temor difuso da violência sexual são elementos da experiência de “ser mulher numa sociedade marcada pela dominação masculina, que os homens – por mais solidários ou feministas que sejam – tipicamente não vivenciam. (p. 84)

A perspectiva social não fecha uma identidade do que é ser mulher. Dentro desse conceito as diferentes formas de ser mulher possuem lugar.

Assim como no livro de Isabel Allende, em que as quatro gerações de mulheres de família rica convivem com uma gama de personagens femininas com condições de vida distintas. Nana, Férula, Tránsito Soto, Pancha Garcia e Amanda são algumas das mulheres que representam a diversidade das vivências femininas.

Além da perspectiva: o posicionamento político

A escrita de Isabel Allende é feminista. Possui traços da tradição da autoria feminina na literatura, assim como também contempla a perspectiva social. No entanto, sua obra representa uma visão profundamente crítica da dominação masculina na sociedade.

Virgínia Woolf escreveu em seu ensaio Mulheres e Ficção (publicado no Brasil no livro O Valor do Riso) sobre como a experiência, particularmente a experiência feminina, pode influenciar a ficção. No entanto, se a ira contamina o texto, compromete sua integridade como obra de arte.

Mais adiante, sobre a crítica aos textos literários escritos por mulheres, ressalta:

(…) quando se põe a escrever um romance, uma mulher constata que está querendo incessantemente alterar os valores estabelecidos – querendo tornar sério o que parece insignificante a um homem, e banal o que para ele é importante. Por isso, é claro, ela será criticada; porque o crítico do sexo oposto ficará surpreso e intrigado de verdade com uma tentativa de alterar a atual escala de valores, vendo nisso não só uma diferença de visão, mas também uma visão que é fraca, ou banal, ou sentimental, por não ser igual à dele (grifo meu).

A mulher que escreve precisa estar atenta aos ímpetos do rancor e enxugar o ressentimento de seu texto, porque sua perspectiva social estará presente em sua escrita. E como garantir que essa perspectiva não seja contaminada pela mágoa?

A ensaísta explica que a crítica à sociedade presente na literatura é fruto de uma postura impessoal e política em relação às vivências das mulheres. A posição política vai além da perspectiva social.

É possível perceber em Isabel Allende a ausência do discurso apaixonado e da defesa ferrenha do feminismo. O resgate do movimento feminista acontece na construção das personagens, que seguem a lógica do desenvolvimento da luta das mulheres e são coesas com o momento histórico vivido por elas.

Sororidade

Sororidade é a união das mulheres por meio do companheirismo. É a consciência de que padecemos de problemas parecidos e que se cuidarmos umas das outras podemos nos fortalecer para combater as opressões.

A sororidade é uma marca do feminismo em A Casa dos Espíritos que aparece de maneira sutil. Está presente quando Clara estabelece uma relação de apoio mútuo com Férula e é representada pelo suporte que Alba recebe de suas colegas quando está se recuperando e decide escrever como uma forma de auto-cura.

Se pensarmos que a ficção escrita por mulheres proporciona uma identificação com a leitora e que esta identificação gera fortalecimento, podemos considerar a escrita de mulheres como uma forma de sororidade.

Ao ler a literatura escrita por outras mulheres, é possível captar as dores, ver outras formas de lidar com as situações e obter inspiração para enfrentar a dura realidade.

Para os homens que leem mulheres, há a oportunidade de desconstrução de paradigmas e um estímulo à empatia em relação as suas experiências.

Neste sentido, a escrita de mulheres é revolucionária.

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4 comentários sobre “As mulheres e o feminismo em A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende

    • mmendes07 disse:

      Obrigada por compartilhar sua história comigo, Carlos. Receber um comentário é tão bom, sinal de que alguém recebeu a mensagem que eu coloquei na garrafa e atirei no mar… E que lindo seu texto sobre o livro! Fiquei tocada pelo trecho: “Para mim, A casa dos espíritos é uma das provas de como a literatura entra na vida da gente pelos mais insondáveis caminhos. Clara, clarividente, um capítulo que me deu um nome. Um nome que me deu uma presença que há dez anos alegra minha vida”. A literatura tem um potencial grande de despertar nossa empatia, né?
      (Também tive a mesma impressão sobre o filme e pretendo escrever sobre ele em breve).

      Curtido por 1 pessoa

  1. Carlos disse:

    Eu que agradeço pelo comentário. Gostei muito do texto e “A casa dos espíritos” é um livro de grande estima pra mim. Em nosso blog, o Lombada Quadrada, temos uma preocupação constante com livros escritos por mulheres. Acompanhamos de perto o movimento #leiamulheres e acreditamos que a literatura tem um papel fundamental na promoção da igualdade de gênero e na denúncia do machismo. E é lindo quando isso aparece em obras primas como a de Allende, sem necessidade de um texto escancaradamente engajado. A arte transforma.

    Curtido por 1 pessoa

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