A Casa dos Espíritos: o filme de Bille August e o livro de Isabel Allende

“O livro sempre é melhor”. Esta é a opinião que, embora controversa, ainda reina entre o público leitor. Falar sobre adaptações de clássicos da literatura para o cinema sempre causa polêmica. E neste caso não será diferente.

Quando pensamos na adaptação do livro de Isabel Allende, então, é bem difícil não cair num certo discurso de raízes históricas: a hierarquização da arte.

A questão da fidelidade

A ideia da supremacia da literatura sobre o cinema é herança dos primórdios desta expressão artística. Quando a cinematografia ainda era vista como “inferior”, buscava se consolidar por meio das referências literárias.

Hoje, o público amante da sétima arte conta com muito mais adeptos que o de leitores apaixonados. É até irônico pensar que no início os literatos viam a arte de fazer filmes com desdém. Coisas da vida.

A verdade é que ainda há pessoas que pensam dessa maneira. Sobretudo os arrogantes, que se valem do amor pela leitura como quem usa uma insígnia: um título de superioridade.

No entanto, precisamos dizer que a experiência da leitura não é igual a de assistir a um filme. Mesmo um bom filme. Na leitura nossa imaginação possui um potencial explorado com mais profundidade. Não há tantos estímulos imagéticos e há mais espaço para  nuances de significado. Contudo, isso não serve para provar que uma forma de arte é melhor do que a outra.

O grande problema teórico na análise de adaptações fílmicas de obras literárias é o problema da fidelidade. Durante muito tempo, como disse, a literatura era considerada uma forma de arte na qual o cinema se referenciava.

A partir daí passou-se a pensar na adaptação como uma forma de reprodução fiel do texto original. Qualquer desvio, a mínima diferença apresentada no filme, causava indignação. E lá iam os críticos destilar suas opiniões.

A questão da tradução

Iara Maria Carneiro de Freitas realizou um estudo sobre a adaptação de Bille August a partir da perspectiva da tradução. O que isso significa?

Se antes a questão da fidelidade era central, tanto para adaptações artísticas quanto para traduções de livros, a partir da década de 1970, essa perspectiva é questionada.

A tradução é vista então como um processo de recriação e de transformação de um texto inicial. Nessa concepção, é essencial que se considere o contexto histórico e social em que a adaptação/tradução é produzida para então se analisar as suas características. Não como num jogo de sete erros, em que se apontam as “falhas”, mas como o exame de uma nova obra e a sua relação com o momento histórico em que é produzida.

O filme de Bille August

A película The House of the Spirits foi lançado em 14 de janeiro de 1994.  Bille August, diretor e roteirista, é dinamarquês. As cenas foram realizadas em Portugal (as exteriores) e na própria Dinamarca (as interiores). O elenco conta com atores de peso: Meryl Streep, Glenn Close, Winona Ryder e Antonio Banderas. O idioma usado se deve, segundo o diretor, ao maior alcance no mercado de filmes com a língua inglesa.

A ausência de profissionais de origem latino-americana na produção gerou até manifestações nos Estados Unidos. Os protestantes convidaram seus conterrâneos e outras pessoas de origem latina a boicotarem a obra.

Não se pode dizer que o boicote obteve sucesso. Da mesma forma, o filme. A boa atuação de Meryl Streep e Winona Ryder não foram suficientes para que essa obra se destacasse. Por quê?

A crítica da época evidenciou a  visão estrangeira do Chile, que retirou da obra a sua tônica latino-americana. Não se trata de exigir a reprodução fiel da obra original. Esperava-se a coerência de apresentar o clima do povo chileno e as particularidades de uma cultura tão rica.

Daniel Piza escreveu duras críticas na na Folha de São Paulo:

Tudo é quase insosso, pasteurizado. Os sobretons de saga jamais são atingidos, os momentos trágicos raro são tocantes, os românticos são tão convincentes quanto os de Tarcísio Meira e Vera Fischer na atual novela das oito.
E mesmo as cenas de impacto, como a da tortura de Blanca (Winona), não mexem com o que o escritor John Grisham chama de “instintos primários”. O cômodo onde ocorre a citada cena, por exemplo, é de uma limpeza e beleza desinfetadas. E o torturador mete tanto medo quanto uma libélula.
Talvez a equipe multinacional tenha sua parcela de culpa. Por sinal, a sensaboria do filme lembra a da tal “world music”. Poderia se passar no Chile ou na Dinamarca ou nos EUA. Até as paisagens são filmadas sem tempero.

Nem o livro de Isabel escapou das ácidas palavras do jornalista: “o tal do realismo fantástico, salvo exceções, não passa de literatura convencional em que a maioria das soluções dramáticas recorre a almas penadas”. Uma visão um tanto reducionista e pouco complexa da obra de Allende.

Em entrevista, Bille se defende: a mensagem principal que retirou do livro e quis retratar foi a habilidade de perdoar e a recusa à vingança.

Isabel Allende disse na época que captou um clima de melancolia escandinava na adaptação, entretanto, não encorajou comparações: o livro é o livro e o filme é o filme.

O longa-metragem de Bille contou com algumas estratégias de supressão de personagens. Muitos ficaram de fora. Alguns foram transformados para tornar a narrativa mais simples. Ao optar por fundir a personagem de Blanca com a de Alba (no que se refere ao enredo), algumas coisas importantes se perderam: as motivações que antes eram relacionadas a concepções ideológicas, passam a representar o sacrifício por amor.

Essa mudança é um fato que simboliza a principal limitação na adaptação de Bille: a sua interpretação do texto. Que é muito similar a de Daniel Piza, da Folha. Se é que o crítico de cinema chegou a ler o livro.

Outra perspectiva

Quando falamos em considerar a adaptação como uma forma de tradução, estamos dizendo que o filme usa signos não verbais para traduzir uma obra literária.

O processo de criação do texto depende muito mais de quem a escreve, mesmo se considerarmos a influência dos editores e revisores. O filme, ao contrário, é um trabalho muito mais coletivo. Há influência de uma ampla equipe: roteirista, diretor, atores, figurinistas, fotógrafo, a trilha sonora, etc. Produtores e grandes empresas do entretenimento mundial também exercem sua interferência.

Ao escolher representar a questão da vingança, o diretor e roteirista optou também por suprimir uma parte essencial da obra da autora chilena: o protagonismo feminino. O filme parece mais a história de Esteban Trueba do que das quatro gerações de mulheres da família Del Valle.

Quando escrevi a análise sobre o livro de Isabel Allende, tomei como ponto de partida a empatia e a sensibilização que uma obra escrita por uma mulher sobre o protagonismo feminino e a sororidade poderiam causar tanto nas possíveis leitoras quanto nos leitores. Escrevi que a escrita de mulheres é revolucionária.

Devo acrescentar, depois de evidenciar a perspectiva de Bille August e de Daniel Piza, que a escrita de mulheres possui sim um potencial transformador. A literatura de autoria feminina, entretanto, não fará todo o trabalho sozinha.

15 comentários sobre “A Casa dos Espíritos: o filme de Bille August e o livro de Isabel Allende

  1. Lilian de Souza Farias disse:

    Pela Deusa Cher, que blog é esse? Já sou sua fã e seguidora, parabéns pela escrita. Sobre A casa dos espíritos, estava em minha lista para ler este mês, infelizmente, não consegui chegar nele ainda. ‘É até irônico pensar que no início os literatos viam a arte de fazer filmes com desdém. ‘ concordo e o mesmo vale para as HQs, também era considerada como inferior. Lendo seu texto, rememorei as aulas de Literatura e Cinema que a professora sempre repetia “Adaptação” e pedia que se pensasse no conceito da palavra na arte. Focamos, na época, no livro O Cortiço e no filme, bons tempos. Também rolou Nelson Rodrigues e discussões fervoras. ‘ Daniel Piza escreveu duras críticas na na Folha de São Paulo’ eu não curto ler essa mídia. Sobre o resto, posso te abraçar? Que blog lindo, que artigo lindo… estava precisando de um lugar assim ❤

    Curtido por 1 pessoa

    • Mari Mendes disse:

      Ai, quanto amooor! Obrigada! Odeio essa coisa de “arte maior e arte menor”, sabe? Grandes clássicos da literaturad de hj não foram adorados pela crítica na época de suas publicações… Enfim, sobre os HQs queria ler mais. Um amiga me apresentou Maus e Azul é a cor mais quente. Amei ambos. E sobre o crítico da Folha, só queria mostrar a visão estreita de machão que ele teve sobre a história para comparar com a visão do diretor do filme… Concordo que temos que ter cuidado e visão crítica sobre o que diz essa mídia dos poderosos. Aceito seu abraço! ❤

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  2. Valéria disse:

    nossa, fazia tempo que não conhecia um espaço literario tão atraente aos meus gostos… comecei a ler A casa dos espíritos mas tive que dar uma pausa pra ler um livro do clube de leitura que participo. esses dias retomo a leitura, ainda mais depois de ler uma análise tão incrível como a tua 😀
    já me apaixonei pelo blog…
    bjs ❤

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  3. Ritchelly Galani disse:

    Que analise mais profunda! Eu quase nunca comparo livro x filme porque sei que são coisas diferentes (mesmo um sendo baseado no outro), o publico muda, a forma de passar a história é diferente! ver um e ler o outro são duas experiencias que sempre vão ser diferentes, e isso não quer dizer que seja ruim! Muito boa a sua reflexão ❤

    Beijos

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