Poesia em voz alta: sobre conexão e coletividade

Quando foi a última vez que você leu em voz alta?

A leitura, assim como uma boa parte das atividades humanas, têm se tornado cada vez mais individual. Mesmo que você compartilhe com o mundo a sua resenha, participe de um clube de leitura ou faça um textão no Facebook, ainda assim, o ato de leitura em si permanece solitário na maior parte das vezes.

Quando você lê em voz alta, no entanto, algo muda. Na primeira você tende a gaguejar, não rola muito bem. Nas seguintes você entende melhor onde dar a ênfase e como ler cada verso. E aí, meu bem, a mágica acontece: um outro sentido do poema, mais profundo, se revela.

Isso porque recitar é uma maneira de interpretar o poema. Definir as ênfases, pensar na linguagem corporal que casa com cada termo, tudo isso constrói uma interpretação diferente daquela que acontece com a leitura silenciosa.

O sarau, local da recitação da poesia, é visto com muita reserva pela maioria das pessoas, inclusive poetas. A declamação parece uma performance de carga dramática demais. O que é uma bela de uma injustiça.

Até a poesia é motivo de zueira na internet. Um dos exemplos é A poesia tem que acabar, página do Facebook que reúne uma galera para expor poemas considerados ruins. Tudo é passível de meme hoje em dia e a poesia não escapou… [Sinceramente, não consigo decidir se eu gosto ou não dessa página. Não dá pra eu escrever sobre isso aqui no texto, então, quem quiser conhecer e contar sua opinião nos comentários, agradeço desde já].

A questão é que declamar um poema abre as portas da percepção, se feito com maestria. Você lembra do Abujamra? As poesias interpretadas por esse cara no programa Provocações eram de arrepiar! Dá o play:

Além de toda a técnica por parte de quem declama o texto, há uma série de detalhes envolvidos no ato de ler em voz alta que merecem nossa atenção.

Da leitura em voz alta para a silenciosa

Em seu livro Uma História da Leitura, Alberto Manguel, conta um pouco sobre o hábito corriqueiro dos primórdios da escrita: ler em voz alta.

A palavra escrita foi feita para ser lida em voz alta. Manguel explica:

As palavras escritas desde os tempos das primeiras tabuletas sumérias, destinavam-se a ser pronunciadas em voz alta, uma vez que os signos traziam implícito, como se fosse sua alma, um som peculiar.

Ler era uma forma de tornar as palavras algo concreto, ou seja dito. Num período de tradição oral predominante, as palavras ditas ganhavam asas e corriam o mundo no boca a boca. Já as palavras escritas permaneciam mortas nas páginas.

Primeiro porque nem todo mundo sabia ler, então, quem detinha esse poder possuía também o dever de entreter as pessoas próximas numa época em que não existia outra forma de passar o tempo. Estou falando do século V, ainda na Alta Idade Média.

A Igreja aprendeu a mecânica do aprisionamento da informação escrita rapidinho. O domínio da Igreja durante a Baixa Idade Média é lembrada pela restrição de acesso a conhecimentos e divulgação de quaisquer ideias que atentassem contra o poder estabelecido.

Interessante pensar que nessa época a pontuação era praticamente inexistente. A entonação e as pausas eram dadas durante as leituras em voz alta. Erros de interpretação e problemas de comunicação surgiam dessa lacuna. Aos poucos foi-se desenvolvendo uma maneira de pontuar o texto para orientar a leitura e prevenir problemas práticos de interpretação.

Para Alberto Manguel, a leitura silenciosa era considerada perigosa porque:

“Um livro que pode ser lido em particular e sobre o qual se pode refletir enquanto os olhos revelam o sentido das palavras não está mais sujeito às orientações ou esclarecimentos, à censura ou condenação imediatas de um ouvinte. A leitura silenciosa permite a comunicação sem testemunhas entre o livro e o Leitor”

Aos poucos, porém a leitura silenciosa foi se tornando mais comum. Especialmente após o início da Idade Moderna. No século XV a leitura já começava a se tornar uma responsabilidade mais individual.

Quem gosta de ler sabe e sente que este é um hábito solitário. A leitura silenciosa é mais rápida e mais fluida. O preço dessa produtividade é o isolamento.

No momento em que a palavra é assimilada, que os sentidos vão se delineando, o leitor está só em sua jornada.

Poesia na calçada

Então, a poesia quela coisa meio esquecida e meio gasta, antes dominada por uma elite intocável, foi apropriada e instrumentalizada por uma juventude que precisa falar.

Em tempos de redes sociais, nas quais várias solidões se juntam para se mostrar, numa lógica da inveja, a leitura silenciosa não adianta mais. Parece só mais um ato de isolamento entre tantos outros. Mais antigo, e que carrega sua tradição, mas ainda assim um exílio interior.

Pra uma galera jogada à margem da sociedade, da “alta literatura”, a poesia dita em voz alta é um refúgio. Fruto do fortalecimento coletivo e da denúncia social, essa poesia pulsa.

Na declamação feita nos saraus populares, nos slams de poesia, a cadência, o ritmo e a rima ganham vida.

Participei de uma sarau em praça pública em minha cidade. Tomei a liberdade de apenas ouvir, não apresentei meus poemas. Quando presenciei as declamações tive a impressão de que a poesia dita, interpretada, fica mais bonita.

Depois de refletir um pouco sobre essa sensação de beleza, cheguei a uma conclusão: a poesia em voz alta gera conexão. Isso a torna uma experiência coletiva de identificação muito prazerosa.

Recitar poemas é colocar-se em situação de vulnerabilidade. Você corre o risco de errar, de gaguejar, de colocar a ênfase na palavra menos adequada. Quando o texto declamado é seu, então, aí a adrenalina é maior: O que vão achar? Será que vão considerar ruim?

Ler os seus poemas é enfrentar seu próprio narciso, é ter um vislumbre de você por outros olhos. E essa vulnerabilidade gera conexão. Em entrevista para o Lamparina Scope, Aline Valek disse:

As sincronias acontecem quando expomos nossas fragilidades. Quando a gente abraça as fraquezas conseguimos nos conectar com o outro, porque nos sentimos à vontade para não fingir que somos perfeitos.

Num tempo de postagens de redes sociais que soam como “olha como minha vida é perfeita”, aceitar a vulnerabilidade de expôr a sua arte em voz alta possui o benefício da conexão e da experiência da coletividade.

Sentir-se parte de algo, identificar-se. A poesia em voz alta conecta e cria solidariedade.

A Experiência da Coletividade

Sabe aquela sensação de coração quebrantado? Aquela emoção que te faz sentir os olhos rasos d’água? A experiência de coletividade é esse transe hipnótico que proporciona bem estar e que nos fortalece para seguir enfrentando uma realidade dura.

Majoritariamente, o espaço desse tipo de experiência é a igreja. Principalmente as neo pentecostais. Tá tudo ali: vulnerabilidade, conexão e coletividade. O complicado é que essas instituições pregam ódio, vendem bênçãos e fabricam crenças limitantes. O preço pago pela fé é alto demais para alguns.

Para quem não consegue se identificar com as instituições religiosas ou simplesmente não tem religião, resta a margem. Aí o jeito é apelar para a filosofia e a arte e procurar neles as ferramentas para construir a esperança, uma espécie de fé genérica, talvez?

Quanto à experiência coletiva, quanto ao bem estar e à esperança, a poesia dita em voz alta pode ser muito reconfortante.

Fazer parte de um grupo, identificar-se com uma dor, se emocionar com uma poesia marginal de quem vive as mesmas merdas que você é incrível. A poesia em voz alta nos conecta com com a humanidade, com o coletivo. E isso é gostosinho demais para o coração.

Então, em defesa da poesia declamada no espaço público, por jovens indignados com esse mundão que a gente vive, digo: a poesia em voz alta é resistência, é arte marginal, é conexão necessária, é uma coletividade de faz parte da cura.

E para encerrar, nada mais justo do que uma poesia falada. Com vocês, Gabz:

4 comentários sobre “Poesia em voz alta: sobre conexão e coletividade

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